Por que nos sentimos tão culpados?


A culpa é um arquétipo que está presente em todos nós, e se manifesta de muitas formas, às vezes acintosamente, às vezes sutilmente, mas está sempre, nos lembrando de algo que em geral não queremos lembrar. Mas quando a sentimos sofremos, porque percebemos que não somos perfeitos; e errar é cair na dor da nossa imperfeição. Como estamos cansados de sentir dor, então, criamos formas para fugir dela, acreditando que estas vão nos redimir do erro do passado, mas não percebemos que ao fazermos essas escolhas, fazemos sob premissas falsas, uma vez que estamos presos aos nossos condicionamentos.

Falhar com nós mesmos e com o outro é terrível, porque percebemos como nos sentimos endividados, principalmente com Deus. Assim, inconscientemente, criamos situações auto-punitivas que fatalmente nos levarão a mais erros e culpas em virtude de uma visão distorcida da realidade.

Resolvemos muitas vezes dizer "sim" para tudo, quando no fundo queremos dizer "não" num processo de auto-punição e compensação por culpas de um passado que não lembramos, mas que está sempre nos assombrando. Sentimo-nos, portanto, vítimas dos outros ou da vida.

Às vezes decidimos tomar conta dos outros, salvá-los como se fossem incapazes de cuidar de si mesmos e, perdidos nessa ansiedade, por culpa, acabamos nos tornando controladores e manipuladores, impondo a nossa vontade salvadora; criando verdadeiros conflitos e infelicidade.

Também podemos escolher ser perfeccionistas, vivendo numa enorme auto-exigência e conseqüentemente cobrando perfeição dos outros, criando para nós e para os que nos rodeiam uma vida rígida e infeliz porque nos transformamos em pessoas autoritárias e controladoras, achando sempre que a nossa verdade tem que prevalecer, por acreditarmos que nos livrará do erro. Reagimos, então, com raiva aos que não fazem o que queremos, ou não são "perfeitos" como nós.

Podemos também nos auto-punir não nos permitindo ser bem- sucedidos, nos condenando a uma vida sofrida e limitada devido a uma baixa auto-estima e, assim, nos fechamos para a vida com medo de errar.

Quantas vezes olhamos para trás e nos questionamos: "por que não percebi aquilo? Por que naquele momento eu não agi de outra forma?" Tantos porquês na nossa vida e quanta culpa acumulamos e carregamos encarnação após encarnação, a ponto de muitas vezes, quando a idade mais avançada chega, surgirem depressões profundas.

A culpa sempre nos acompanha de alguma forma e nem sempre percebemos que determinada limitação é resultado da culpa que trazemos e que nos leva a um processo de auto-sabotagem. Na verdade, não queremos reconhecer, não queremos enxergar a verdadeira causa disso porque dói. Dor doída e sofrida que na maioria das vezes nos acompanha através dos tempos e, por recusarmos a entrar em contato com esse sentir, culpamos o outro, a vida e Deus.

Na clínica, às vezes surgem pessoas em crise se culpando de situações, que eu diria, injustificáveis e encontramos a real causa em vidas passadas. Ficamos agarrados ao erro, nos condenando moralmente por um fato que já passou. Temos a tendência a repetir o nosso passado e criamos inconscientemente situações que o potencializa novamente.

Onde está a solução? Na compreensão da causa das nossas culpas. Quando aceitamos a nossa imperfeição e entendemos que somos espíritos em evolução, e que naquele momento em que erramos, era impossível ser, sentir ou fazer de outra forma. Ter a compreensão de que as crenças ou idéias que permeavam a nossa vida naquele momento não nos deixavam enxergar a realidade de outra maneira. Nós ainda não somos perfeitos e agiremos conforme o estágio de desenvolvimento intelectual e moral que estivermos e erraremos por conta disso. Mas isso não nos exime da responsabilidade do erro, somos responsáveis por todos os nossos atos e essa conscientização nos liberta da auto-piedade, da resignação passiva e da onipotência.

Muitas vezes erramos e nos sentimos culpados porque, por nossa ignorância e cegueira, fazemos pessoas sofrerem, somos maus e invejosos e, para fugir da culpa, buscamos uma auto-justificação ou responsabilizamos o outro por nossas faltas reais. Mas é necessário termos a coragem de reconhecer o erro, de encarar a realidade e nos questionarmos por que agimos assim, quais as causas que estão ocultas que não queremos ver e que nos levaram a agir daquela maneira. Devemos buscar clareza da situação e humildade de pedir ajuda, se for necessário, para uma melhor compreensão do fato e, acima de tudo, nos predispor a mudar, a ser diferente. Jamais podemos esquecer que aprendemos através dos nossos erros, por mais simples e inofensivos que sejam; este é um aprendizado que devemos absorver e que nos conduzirá para um acerto futuro. Uma vez que compreendemos e integramos o aprendizado a nossa consciência, nos elevamos um degrau acima na nossa evolução e isso nos liberta para o auto-perdão.

Na verdade sofremos quando erramos e caímos na culpa, pois queremos ser aceitos e amados e na nossa ignorância acreditamos que só seremos amados se formos perfeitos. Não percebemos que, ao cobrarmos perfeição de nós mesmos, quando ainda não é possível tê-la, estamos vivendo um processo de profundo desamor por nós mesmos e pelo próximo. Como ser aceito e amado se não aceitamos e amamos a nós mesmos? Precisamos entender que seremos amados na medida em que amarmos, aceitos na medida em que aceitarmos o outro, e para isso não precisamos ser perfeitos, mas somente ter um coração cheio de AMOR.

Cristina Azeredo


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