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Vivemos na ilusão de que somos somente um corpo e não um espírito em evolução, e então nos perdemos na fantasia do "ter," para nos sentirmos alguém e acabamos nos tornando o rótulo que criamos para nós.
Apegamo-nos a coisas materiais num processo às vezes obsessivo de que só seremos felizes se tivermos coisas (casas, carros, muito dinheiro etc.). Não que o dinheiro não seja importante, é uma energia que precisa circular para todos. A dificuldade está no excesso, na ambição, no querer cada vez mais, e isso é apego e, por conseguinte, uma posição egoísta em relação à vida. Nos perdemos no "eu" e no "meu" e esquecemos que viver é partilhar
Tudo na nossa vida não é só nosso. Tudo é para ser partilhado. Se temos um conhecimento, um talento, devem ser partilhados, porque se ficarem presos dentro de nós, não terão utilidade. Assim também, são as coisas materiais. O dinheiro que o progresso traz é para todos. Há muitas discórdias familiares por conta de bens, heranças. Há pessoas que matam por dinheiro. Mas, essas pessoas não percebem que é impossível terem a posse material; tudo é transitório. Somente usufruímos. Nada levamos ao morrer, ou como também, podemos perder tudo repentinamente. Nada é garantido.
Somente possuímos o que é do uso da alma, e é o que levamos conosco. Devemos ter a consciência de que a nossa herança é somente das aquisições morais, o conhecimento que adquirimos ao longo da vida Já tivemos muitas existências ao longo dos tempos. Quem é rico hoje, já foi pobre ontem, quem é pobre hoje, já foi rico ontem; portanto levar-se pelo egoísmo e orgulho é uma grande ilusão. É claro que o possuir é uma fonte de prazer, nos sentimos importantes, seguros. Mas é uma falsa segurança porque nos tornamos prisioneiros dela, uma vez que temos medo de perdê-la, e ao sermos subjugados pelo medo, vivemos o conflito e o sofrimento.
Vivemos sob a lei de causa e efeito. Se não temos o suficiente para vivermos como gostaríamos, devemos buscar a causa disso dentro de nós mesmos. Se não o temos hoje, é porque o usamos mal ontem. E é possível modificar isso? Sim, desde que percebamos como e para que queremos usar a energia do dinheiro. Se ficarmos presos ao mesmo padrão do passado, possivelmente, não o teremos, mas se mudarmos, se adquirirmos verdadeiramente outros valores para o uso do dinheiro, é possível que tudo mude na nossa vida.
Desapego é prezar as coisas materiais no seu justo valor e termos desprendimento caso as percamos.
Somos também apegados a pessoas, amigos, filhos, como se, sem eles, a nossa vida não fosse possível, numa relação neurótica de ciúme e possessividade. Com isso nos tornamos manipuladores, controladores, não vivendo e não deixando eles viverem; alegando sempre que os amamos e que queremos o melhor para eles, impondo a nossa vontade numa postura dominadora e autoritária. Na verdade, temos medo de perdê-los, porque nos sentimos inseguros sem eles. Temos medo de não sermos aceitos e amados, da solidão, ou do mundo que pode ser assustador. Entretanto, só a fé e o amor cura o medo, mas para isso é importante que queiramos nos curar. Que queiramos buscar em nós a causa de tanta insegurança. Vivemos presos ao medo da perda daqueles a quem acreditamos amar e não percebemos que quanto mais os manipulamos para ter o seu amor, mais os perdemos. Amar não combina com controle e manipulação. Respeito às convicções de todos, com certeza nos levarão a sermos também amados e aceitos.
Quantas vezes somos obsessivos na busca de status. O sentimento de inferioridade dói tanto, que queremos a qualquer custo sermos notados e nos perdemos assim nos brilhos, nas roupas da moda, nos carros importados, desejando a qualquer custo parecer com aqueles que consideramos famosos e importantes e, conseqüentemente, superiores. Infelizmente, estamos presos ao orgulho e vaidade e passamos a representar aquilo que não somos e que desejamos ser por baixa auto-estima. Devemos sempre participar e interagir com o mundo, mas nos respeitando e vivendo de forma adequada a nossa realidade e ao descobrirmos as nossas reais potencialidades interiores, nos permitiremos uma vida autêntica e sincera.
Erick Fromm diz "que as pessoas egoístas são incapazes de amar os outros, mas também não são capazes de amar a si mesmas. É necessariamente infeliz e ansiosamente preocupada em furtar da vida as satisfações que a si própria impede de atingir". Tudo e todos têm importância na medida em que possa ter utilidade para si e não atrapalhe o seu status quo .
O desejo é a porta de entrada para o apego, todavia quanto mais desapegados formos a paz que tanto buscamos poderá então se tornar parte da nossa vida.
Cristina Azeredo
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