Felicidade essa, difícil de alcançar, porque as nossas misérias interiores nos impedem. Como não suportamos esse eu mau o rejeitamos, não aceitando essa parte negativa que também é nossa. Não gostamos de nada que não seja agradável em nós e aquele que apontar as nossas falhas, provavelmente será nosso eterno inimigo.
Todos temos uma criança em nós, na maioria das vezes uma criança sofrida e infeliz, porque acreditou que era má e imperfeita e que ninguém iria amá-la por isso; nos sentimos então inadequados e com medo da rejeição. Por não suportarmos viver com sentimentos tão negativos, criamos uma máscara, um eu idealizado, a pessoa que achamos que devemos ser, e muitas vezes passamos a acreditar que somos ela. As máscaras são inúmeras: o do bonzinho, do perfeccionista, da boa moça, da espiritualizada, do poder etc.. Tudo isso é um processo complexo que criamos inconscientemente para fugir da dor e do sofrimento e, principalmente, do medo de não sermos aceitos e amados.
Como negamos em nós as nossas limitações, o nosso eu inferior, com medo de sermos somente isso, negamos também a nossa parte divina, rejeitando assim o que há de mais belo em nós. A auto-aceitação é o ponto inicial para a nossa libertação.
Aceitar-se é aceitar a responsabilidade da nossa imperfeição, olhá-la de frente, como parte de nós mesmos, e não nos colocando numa posição defensiva, sendo o que não somos. Mas isso não quer dizer conformismo, sim um olhar mais profundo para dentro de nós. É aceitar a nossa condição humana, de um ser em evolução, que está num processo de se tornar perfeito um dia , mas ainda não é. Como não conseguimos aceitar-nos, também não conseguimos aceitar o outro que nada mais é que um reflexo de nós mesmos.
O crescimento espiritual se torna possível, quando nos abrimos para ser o que somos, ou seja, um ser humano imperfeito, mas que também tem em si uma natureza espiritual perfeita.
Queixamo-nos da solidão, mas somos nós que criamos essa condição de vida ao sermos rígidos nos nossos julgamentos em relação ao outro, exigindo dele comportamentos e atitudes conforme os nossos valores. Com isso perdemos oportunidade de fazer belas amizades simplesmente porque o outro não é do jeito que queremos. Só que essa postura rígida também a temos conosco. Só nos permitimos amar, aceitar e, conseqüentemente, conviver com aqueles que estiverem dentro do nosso parâmetro de perfeição. Colocamos rótulos: só posso amar se for assim... , só posso me relacionar se for... . Por trás dessa postura encontra-se um orgulho, uma superioridade que só nos leva a mais solidão. Aceitar- se é soltar a armadura da rigidez, é ter amor e generosidade por si e pelo próximo,
Uma vez fui caminhar pela Avenida Copacabana, que tem muitos transeuntes, para treinar um exercício de observação; eu andava olhando para os rostos de todas as pessoas fixamente, somente observando. Os rostos iam passando: tristes, alegres, amargurados, sofridos, felizes, marcados, angustiados, surpresos, surpreendentes... e ao olhá-los e me permitir entrar em contato com as mensagens que recebia, o meu coração foi se abrindo e eu fui me identificando com a tristeza que também existia em mim, a alegria, o deslumbramento... . Nós não éramos muito diferentes, só seres humanos, e eu senti um grande amor por mim e por aquelas pessoas. Mas, também, senti o quanto a experiência da separação de Deus nos torna autômatos e alienados de nós mesmos.
Estamos todos, cada um ao seu jeito, em busca da felicidade e da paz, ou seja, de experimentar a unidade com Deus que é o que todos queremos, mas precisamos deixar de ser egoístas, orgulhosos, vaidosos, apegados a tantos desejos irracionais.
A vida está aí para ser vivida. Devemos nos abrir para apreender o significado mais profundo dos acontecimentos que surgem na nossa vida e refletirmos sobre a sua mensagem com desprendimento, aceitação e percepção da sua efemeridade, assim entramos em harmonia com ela, e poderemos, então, perceber a grandeza da existência que vai nos levando sutilmente para patamares conscienciais cada vez mais elevados. Mas é necessário observar o que esta nos traz sem revolta, sem medo, porque a solução também está sendo trazida. Nesse intervalo entre o conflito e a solução, se tivermos calma e senso de observação, um grande aprendizado estará disponível. Reclamamos da vida, porque não aceitamos ler o seu livro com paciência e amor. Esta é a nossa vida, a nossa história, que deve ser vivida com consciência e aceitação.
Cristina Azeredo |