Relacionar-se é nos colocamos em harmonia com a vida, embora para muitos de nós seja algo complicado, difícil, porque significa atrito. Infelizmente, nem sempre percebemos que esses atritos são a alavanca que nos impulsiona a aprender e a crescer.
Perdemos muitas vezes oportunidades de nos relacionarmos por medo de nos expormos e nos fechamos numa redoma de proteção com receio desse outro que pode nos ferir.
Mas não adianta fugirmos. Estamos sempre nos relacionando, o tempo inteiro, de alguma forma, com a natureza, com os livros, com pessoas na rua, no trabalho... não adianta nos isolarmos na nossa redoma, porque o mundo nos chama e um anseio por ele está latente em nós, apesar dos nossos medos.
O outro na nossa vida é de extrema importância, uma vez que evoluímos através das relações. Estas passam a ser um espelho inclusive daquilo que não queremos ver em nós mesmos, e esse é um dos motivos de conflito, pois não encaramos o nosso lado negativo, já que, precisamos estar sempre “certos”. Não percebemos que os conflitos nos relacionamentos é uma mensagem que estamos recebendo de que algo está errado conosco. Temos a tendência a achar que o outro é o culpado de tudo que não nos agrada; portanto, ele é que precisa mudar, e não nós. Projetamos nos outros o que não aceitamos em nós, e recusamos enxergar o nosso lado sombra, obscuro da nossa personalidade e isso indica imaturidade psicológica e espiritual.
Quantas vezes nos desqualificamos e aos outros, vendo somente o lado negativo, não considerando o quadro geral das situações. Então rotulamos pessoas, inferimos e interpretamos situações de acordo com nossa conveniência, porque não queremos fazer uma autocrítica sincera e com isso generalizamos nas nossas observações, nos fechando em conclusões radicais. Achamos sempre que os outros deveriam ser, fazer ou viver conforme os nossos valores. Muitas vezes, esquecemos momentos belos e positivos que vivemos, por enfatizar ou enxergar só o lado negativo das pessoas ou das situações, presos a mágoas e ressentimentos num processo auto-destrutivo.
Não importa o erro de alguém para conosco. Se isso nos perturba é por que estamos na mesma sintonia, então devemos buscar em nós mesmos a causa da perturbação. O erro do outro é dele, não nos pertence. Portanto, não pode nos afetar e se isso acontece, aquele padrão de conflito também está em nós.
Um relacionamento equilibrado e maduro implica em sermos autênticos conosco e com o outro. Em sabermos ver o instrumento de autoconhecimento que essa relação pode ser para nós, quando aproveitamos as situações de atrito que sempre surgem por conta das diferenças humanas, para nos observarmos e darmos um mergulho dentro de nós. Cada parceiro é consciente de que está servindo como um espelho do estado interior do outro, para que o crescimento pessoal possa ocorrer. O amor passa a ser então um desafio constante. Uma experimentação e revelação recíproca a partir do nosso self e que nos possibilita uma entrega verdadeira àquela relação e um respeito e uma responsabilidade pelo nosso crescimento e pelo do nosso parceiro. Um não está contra o outro ou se defendendo como se estivesse com o inimigo; muito pelo contrário, está havendo amor, envolvimento, compreensão e esforço para uma evolução e felicidade mútua.
Infelizmente, a maioria das relações afetivas são insatisfatórias. Esperamos sempre que o outro supra as nossas necessidades emocionais, e como isso não é possível, caímos na frustração, na desilusão e na desesperança de sermos felizes com alguém. Jung denominou a feminilidade inconsciente no homem de anima e indica as suas experiências ancestrais com as mulheres e é na relação com a mãe que a anima primeiro se manifesta. A masculinidade inconsciente na mulher chamou de animus e indica as experiências com os homens através dos tempos e é na relação com o pai que primeiro será potencializado. O homem transferirá esse arquétipo feminino inconsciente, que é inato nele e foi projetado na mãe, para as suas relações afetivas. A mulher transferirá o arquétipo masculino inconsciente, que é inato nela e foi projetado no pai, para as suas relações afetivas.
Jung diz “ o homem em sua escolha amorosa, sente-se tentado a conquistar a mulher que melhor corresponda a sua própria feminilidade inconsciente: a mulher que acolha prontamente a projeção da sua alma.” E acrescenta “Na medida que o animus e a anima for inconsciente será sempre projetada, uma vez que todo inconsciente é projetado.” Portanto, é essa imagem reprimida que procuramos nos respectivos parceiros e que é uma das causas dos grandes conflitos e desilusões. Tanto a anima quanto o animus contêm tanto aspectos positivos quanto negativos e são esses que entram em conflito e que levam o casamento a uma insatisfação cada vez maior.
Esses arquétipos masculinos e femininos em nós e que são acompanhados de muitas crenças distorcidas precisam ser entendidos e integrados a nossa consciência, para que possamos ser capazes de relacionamentos autênticos e felizes. Enquanto não o resolvermos tenderemos a repeti-los, atraindo os mesmos tipos de relacionamento num processo compulsivo. Há pessoas que passam por várias relações afetivas, mas se observarem bem perceberão que as suas queixas mais profundas em relação ao outro são as mesmas, apenas se apresentam com nuances diferentes.
Jung disse: “Ninguém compreenderá realmente estes fatos se não experimentá-los em si mesmo”.
Portanto, viver é se relacionar, e se quisermos viver bem deveremos sempre lembrar de que o que não queremos para nós, não devemos querer para o outro. Colocar-se no lugar do outro é um excelente exercício que devemos praticar para aprender a AMAR
Cristina Azeredo |