Há muitas formas de amar, pois sempre confundimos amor com necessidade emocional. Esse outro a quem amamos, precisa satisfazer todos os nossos desejos para nos sentirmos amados, entretanto o verdadeiro amor é aquele que se dá sem esperar nada em troca. Porém como temos dificuldade para amar dessa forma, vamos caindo na insatisfação, na raiva contida pelo fato do outro não ser do jeito que esperávamos que fosse ou não suprir os nossos anseios. Existe dentro de nós uma criança culpada, medrosa, ferida, carente e que ao introjetar as experiências sofridas, generalizou essas percepções e projetou-as na vida como um todo. A forma e intensidade dessa introjeção acontecer, depende da predisposição da alma, ou seja, dos conteúdos já trazidos de vidas anteriores. Enquanto essas emoções forem inconscientes, tenderemos a reproduzi-las compulsivamente. Ao nos relacionarmos na fase adulta, ativamos inconscientemente esses impulsos emocionais que reprimimos com medo de não sermos amados por nossos pais. Portanto, “amamos” enquanto os nossos anseios emocionais, sociais, sexuais, econômicos, etc. estão sendo atendidos. Tão logo não estejam, “deixamos de amar” e conforme a situação, “passamos até a odiar”. Cada um dá o que tem e não o que infantilmente esperamos que dê. Sendo assim, ficamos insatisfeitos pelo fato da pessoa não ser do jeito que queremos e, então, a admiração, o encantamento, o anseio de estar junto começa a esmorecer.
Estamos sempre buscando a felicidade no outro e pensamos: “quando encontrar alguém como imagino vou ser feliz”. Será que vamos? É difícil, porque já partimos de uma idéias idealizada do que é ser feliz e do como esse outro deverá ser para nos fazer feliz. Esse sonho ideal projetamos, não vendo a real pessoa que está conosco, uma vez que somente enxergamos a imagem idealizada que criamos. Com certeza, o resultado será desilusão e insatisfação, pois sempre queremos que o outro nos faça feliz, amando-nos como desejamos. No entanto, primeiramente precisamos encontrar a felicidade e o amor em nós, conhecendo-nos, e assim aprender a amar e ser feliz com o que somos, o que nos possibilitará dar amor, ao invés de somente querer receber.
Susan Thesenga em seu livro O Eu sem Defesas diz: “ Ninguém é perfeito, ninguém nos ama perfeitamente, e é assim que as coisas são. Não é nossa culpa, e não podemos fazer nada para forçar os outros a serem mais perfeitos. Todos são imperfeitos. E todos são perdoáveis”.
Amamos com tudo que somos de bom e de ruim. Ora somos magnânimos, ora somos cruéis e mesquinhos e como não queremos ver o nosso lado mau, negamos, afirmando sempre o quanto somos bons com o nosso amor ou com a nossa forma de amar. Entretanto, não é possível a transformação e a maturidade psicológica e espiritual sem o reconhecimento, a aceitação do nosso ego negativo. Para transformá-lo, é preciso primeiro aceitá-lo.
Amar verdadeiramente pressupõe liberdade, entrega, respeito, compreensão, aceitação, não esperar nada em troca, desejar o seu crescimento interior e a sua felicidade tanto quanto o da pessoa amada. Enfim ser companheiros nessa jornada evolutiva. Mas quantos de nós conseguimos amar assim? Muito poucos, uma vez que o nosso ego negativo questiona, critica, duvida, controla, impõe, porque sempre nos colocamos na posição de depender, pertencer, exigir. O nosso ego infantil quer a realização de todos os seus desejos, pois tem medo e, com isso, não há um clima de liberdade, igualdade e respeito.
Krishnamurti diz no seu livro Liberte-se do Passado “no estado de pertencer a outro, de ser psicologicamente nutrido por outro, de outro depender – em tudo isso existe sempre, necessariamente a ansiedade, o medo, o ciúme, a culpa, e enquanto existe medo não existe amor. Portanto, quando uma pessoa ama, deve haver liberdade – a pessoa deve estar livre, não só da outra, mas também de si própria.”
Se somos infelizes no amor, a causa está em nós; somos os únicos responsáveis por nossas escolhas e se a nossa vida não é como gostaríamos que fosse, não podemos culpar ninguém. O autoconhecimento é uma qualidade que devemos desenvolver. Todos nós queremos ser felizes, amar e ser amados, mas para isso precisaremos encontrar a nossa beleza interior. Enquanto existir em nós pensamentos e sentimentos destrutivos inconscientes, estaremos vivendo um pseudo-amor. O esforço de crescimento, compreensão, transformação e respeito tem que ser mútuo numa relação, para que o amor possa ser cada vez mais lapidado em direção a uma entrega mútua e verdadeira.
Só o amor nos diviniza. Entregarmo-nos verdadeiramente ao outro, simboliza uma verdadeira entrega a Deus, uma vez que Ele também está no outro.
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Cristina Azeredo |